Escuta Educativa - Programa da Rádio Educare.47 do Instituto de Educação de Minas Gerais
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Empresas brasileiras fora da exploração do pré-sal
Empresas brasileiras fora da exploração do pré-sal
Wladmir Coelho
A Constituição de 1988 objetivando a implementação de uma política econômica de fundo desenvolvimentista estabeleceu uma clara distinção entre empresa brasileira e empresa brasileira de capital nacional. A base desta diferenciação, anota o professor Ricardo Antônio Lucas Camargo, pode ser encontrada, dentre outros, no projeto de lei apresentado por Gabriel Passos no qual apresentavam-se os seguintes critérios para conceituação de empresa brasileira: Ser constituída no Brasil e ter neste a sua sede, mais de 50% do seu capital constituído por ações nominativas de propriedade de brasileiros, residentes permanentemente no país, direção por brasileiros, ausência de laços de subordinação ou dependência com firmas, grupos, trustes ou indivíduos estrangeiros.
Reconhecia-se desta forma o fato nação aspecto aplicado na Constituição de 1988 quando foi oferecido a empresa de capital nacional, conforme anota o mestre do Direito Econômico Washington Albino, “tratamento de especial proteção e benefícios com relação ao desenvolvimento econômico e tecnológico do país, preferência de compra de seus produtos pelo poder público e outros”.
Em apenas sete anos esta proteção desapareceu em função do predomínio ideológico fundamentalista liberal tendo a Emenda Constitucional nº 6 suprimido a existência da empresa de capital nacional resultando na desconsideração da origem do capital participante ou controlador para definição de empresa brasileira. Deste modo quando usamos a expressão empresa brasileira não estamos nos referindo, necessariamente, ao estabelecimento controlado por brasileiros.
Fornecimento nacional para o pré-sal
No último dia 24 de janeiro o jornal Folha de São Paulo anunciou a intenção da Petrobrás em diminuir o percentual de nacionalização dos equipamentos utilizados na exploração do pré-sal dos 65% anunciados para 35%. A Petrobrás desmentiu o jornal apontando um crescimento de 400% nos contratos efetivados no Brasil.
Esta polêmica envolvendo o grau de nacionalização dos equipamentos para o pré-sal não é novidade apresentando o governo sempre duas posições ficando a primeira para o discurso “nacionalista” notadamente em período eleitoral contrastando esta com a pressa exportadora criando a necessidade de trabalhar com equipamentos importados e não montados em empresas estabelecidas no Brasil.
O ex-ministro das Minas e Energia, Márcio Zimmermann, ilustrando esta afirmativa apontava em entrevista ao jornal Valor Econômico (agosto de 2010) a manutenção dos índices de nacionalização atuais entre 37% e 55% na fase de exploração podendo atingir 65% no período de desenvolvimento da produção justificando que “o percentual é um pouco menor na exploração porque é preciso atuar dentro de prazos menores e há o uso de aparelhos sofisticados ainda não produzidos no país”. Este “pouco menor” seria o mínimo de 37%?
Passado o momento dos “aparelhos sofisticados” o antigo ministro acalmava os interessados em aumentar a presença nacional nos contratos para o pré-sal afirmando: “me dá muita tranqüilidade olhar esse processo, pois está havendo entrada de empresas estrangeiras para produzir no Brasil”. Este seria o aumento da participação das empresas brasileiras.
O empresariado deveria atentar para o “pequeno detalhe” no conceito de empresa nacional introduzido através da emenda nº6 e brilhantemente definido nas palavras do Dr. Zimmermann, afinal corremos o risco de observar a redução do capital nacional a condição de fornecedor de quentinhas ou faxina para os blocos exploratórios do pré-sal.
Enquanto isso a concentração avança declarando um executivo da Wartisila (Finlândia) ao blog do Guilherme de Barros em 2010: “tal obrigatoriedade [de 65% de nacionalização] pode impulsionar a compra ou aliança com um fabricante local”. Exemplo cristalino encontraremos na produção dos equipamento necessário ao escoamento do óleo extraído do pré-sal que será produzido através da empresa nacional General Eletric integrando a cota de 65%.
Fica evidente a necessidade de ampliação do debate a respeito da nacionalização dos fornecedores e prestadores de serviço para o pré-sal. Os sindicatos, empresários, o mundo acadêmico, não faço referência aos parlamentares tendo em vista o elevado grau de submissão destes, deveriam iniciar uma mobilização para melhor esclarecer os prejuízos do atual conceito de empresa nacional e criar os meios necessários para a proteção dos interesses nacionais.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
PRECISAMOS ENTENDER A FARSA DA ESTATIZAÇÃO DO PRÉ-SAL

CAMARGO, Ricardo Antônio Lucas. Direito Econômico, direitos humanos e segurança coletiva. Porto Alegre, Núria Fabris, 2007.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
História do Petróleo no Brasil
HISTÓRIA DO PETRÓLEO NO BRASIL
O PETRÓLEO NA AMAZÔNIA
Wladmir Coelho*
“O ministro Juarez Távora - através de uma longa exposição radiofônica - compara o potêncial de produção da bacia amazônica à Venezuela e previa, para o final da década de 1950, que metade do petróleo consumido no Brasil
seria proveniente da região.”
Consolidar a Petrobrás, nos primeiros anos da empresa, significou apontar a localização de áreas com potêncial petrolífero além daquelas conhecidas no estado da Bahia. Estas áreas eram reconhecidas inclusive pelo governo que - pelo menos- desde o anteprojeto do "Estatuto do Petróleo" pretendia promover a sua exploração através da concessão.
O primeiro presidente da Petrobrás, General Juracy Magalhães, oferecendo um tratamento científico à questão, contratou, em 1954, os serviços do geólogo Walter Link para um estudo detalhado das áreas com possibilidade de acúmulo de petróleo. O resultado deste estudo seria apresentado em 1961 com conclusões ainda hoje polêmicas.
No mesmo ano de 1954, portanto de modo anterior aos estudos cientificos de Walter Link, os técnicos da Petrobrás perfuram poços nas cidades de Nova Olinda, Autás Mirim e Mauês, no estado do Amazonas, concluindo pela existência de petróleo naquela região.
O governo assume a descoberta como uma realização de grande importância para o futuro auto abastecimento nacional e incumbe o chefe do Gabinete Militar da Presidência da República - General Juarez Távora - de comunicar oficialmente a descoberta.
O ministro Juarez Távora - através de uma longa exposição radiofônica - compara o potêncial de produção da bacia amazônica à Venezuela e previa, para o final da década de 1950, que metade do petróleo consumido no Brasil seria proveniente da região. Entretanto o representante do governo enumerava uma série de dificuldades (técnicas e financeiras) enfrentadas pela Petrobrás para a conclusão deste objetivo e retomava o discurso de defesa da abertura ao capital privado como fórmula de garantir a rápida exploração do mineral descoberto.
A descoberta do petróleo em Nova Olinda é utilizada pelo governo como forma de propor a primeira mudança na política econômica do petróleo posterior á criação da Petrobrás, afirmando o Chefe do Gabinete Militar - durante a entrevista radiofônica - que a empresa petrolífera nacional deveria pedir: "(...) ajuda de empresas particulares que desejem empreitar serviços de pesquisa e exploração, sob o controle da Petrobrás, mediante pagamento das despesas feitas e mais um lucro razoável , exclusivamente com o óleo que conseguirem produzir" (TÁVORA 1955 p.316).
O general não explicava como seria realizada esta "ajuda" e quais eram estas empresas, mas torna visível a movimentação do governo no sentido de alterar ou revogar a Lei 2004 cujo artigo 2º afirmava:
A União exercerá o monopólio [da exploração e comercialização do petróleo] estabelecido no artigo anterior:
I - por meio do Conselho Nacional do Petróleo, como órgão de orientação e fiscalização;
II - por meio da sociedade por ações Petróleo Brasileiro S.A. e das suas subsidiárias, constituidas na forma da presente lei, como órgãos de execução (BRASIL 1954 p.13).
Esta alteração no texto da lei não ocorreu , mas a idéia do auto abastecimento ficou no mínimo "adormecida" e no final da década de 1950 o Brasil não produzia a metade do petróleo consumido internamente, além disto a exploração e pesquisa na região amazônica foi abandonada e rotulada de insuficiente do ponto de vista comercial.
A política econômica do petróleo nos primeiros anos da Petrobrás assumiu uma característica observada no Brasil desde o Estado Novo, priorizando o abastecimento - através do petróleo importado - introduzindo como diferencial a criação de refinarias pertencentes a empresa e dos primeiros projetos para a distribuição do combustível através de dutos.
*Mestre em Direito, historiador, Diretor Cientifico da Fundação Brasileira de Direito Econômico
