sábado, 3 de agosto de 2019

INICIAÇÃO CIENTÍFICA E DESENVOLVIMENTO TECNOLÓGICO; O PAPEL DA ESCOLA NO PROCESSO EMANCIPATÓRIO NACIONAL Wladmir Coelho




INICIAÇÃO CIENTÍFICA E

 DESENVOLVIMENTO TECNOLÓGICO;

O PAPEL DA ESCOLA NO PROCESSO

 EMANCIPATÓRIO NACIONAL


Wladmir Coelho

O controle da produção científica e tecnológica revela-se em nossos dias a base da disputa entre potências econômicas restando aos países periféricos o simples acompanhamento e consequente consumo das chamadas novas tecnologias.

A dependência tecnológica, deste modo, apresenta-se como um grande obstáculo ao desenvolvimento econômico aprofundando a distância entre ricos e pobres desde o acesso aos medicamentos, às condições de transporte, comunicação e emprego.

Diariamente os meios de comunicação divulgam informações envolvendo a disputa pelo controle tecnológico nos diferentes setores da economia constituindo este fato em disputas que beiram o conflito militar encontrando-se este setor, inclusive, no centro da produção cientifica mundial.

No caso brasileiro a superação destas dificuldades encontra no discurso da valorização da educação a sua fórmula comum, contudo a palavra de forma isolada não consegue materializar os meios necessários existindo a necessidade da criação de políticas educacionais entendidas como parte integrante do planejamento econômico.
 
Neste sentido a Constituição de 1988 elevou a educação básica a condição de direito social determinando ainda a sua vinculação ao mundo do trabalho e a prática social criando, desta forma, os instrumentos necessários a formação de nossos jovens associada ao processo de transformação econômica nacional.

Desta forma o desenvolvimento de uma formação cientifica básica passa a exigir a superação das metodologias educacionais apoiadas no discurso da ciência para aquela voltada à associação entre a teoria e a prática valorizando a intervenção no meio social apresentando como objetivo, ainda segundo a Constituição de 1988, a “promoção humanística, científica e tecnológica do país.”

A restrição ao discurso da ciência nas escolas, em detrimento a sua associação a prática cientifica, guarda ainda elementos da busca de uma mítica neutralidade de suas ações impossibilitando a intervenção na realidade a partir da orientação escolar resultando na formação pautada na simples aceitação e quando muito na adequação das vidas dos estudantes as condições sociais dadas.

Vejamos neste ponto a necessária superação das formas tradicionais observadas nas antigas feiras de ciências com maquetes dos grandes rios e seus afluentes para um estudo amplo envolvendo, além da maquete, a forma de exploração econômica predominante naquelas águas com seus benefícios e perigos ou uma análise das áreas de risco urbanas superando a simples narrativa do desmoronamento iminente distanciada de um estudo das políticas de ocupação e uso do solo.

A iniciação científica, como observamos, possui como característica a mobilização social reservando a escola a condição de educadora não somente de seus estudantes ampliando esta função à comunidade na qual encontra-se inserida. Para ilustrar esta aplicação imagine os estudantes do ensino médio participando diretamente da elaboração e aplicação, junto as prefeituras, dos projetos de preservação do patrimônio público ou contribuindo na criação de meios para o uso racional da água e energia com o apoio das empresas públicas do setor.

Temos neste ponto a vinculação da educação ao mundo do trabalho, fato determinado em nossa Constituição, ampliando o conceito de trabalho para além da formação técnica e profissional associando a escola a ação criativa e prática apresentando em sua base a democratização da produção científica.

Esta democratização, naturalmente, inclui não apenas a aplicação escolar de novas tecnologias, mas a sua reelaboração somada ao acesso aos centros de criação estimulando ainda a formação continuada de nossos professores através de programas de formação em diferentes níveis associados a progressões e promoções em sua carreira.

Temos no fato iniciação científica, como é possível observar, aspectos notáveis em relação ao processo de ensino/aprendizagem, contudo devemos atentar para a sua condição supra escolar envolvendo desde a formação de professores, a mobilização dos diferentes agentes públicos, o setor produtivo somados a necessária política econômica voltada ao desenvolvimento nacional. 

segunda-feira, 1 de julho de 2019

NÃO VIVEMOS EM UMA NOVELA Wladmir Coelho


NÃO VIVEMOS EM UMA NOVELA

Wladmir Coelho

Os atuais detentores do poder político brasileiro encontram-se legitimados a partir do discurso irracional da negação do processo de dependência econômica criando este um revisionismo de base mítica no qual um herói vai acabar com a corrupção aprisionando e silenciando exatamente aqueles que, em maior ou menor escala, defendem o rompimento com as causas históricas do atraso econômico nacional, ou seja, o modelo econômico de base colonial.

Este discurso mítico não nega o atraso econômico nacional e assume como missão a superação desta condição, contudo a sua base irracional possibilita uma narrativa fantástica na qual os detentores do poder econômico transformam-se em vítimas dos trabalhadores em função dos “privilégios” que estes possuem.

Retirar direitos trabalhistas como forma de superação de uma crise sem fim constituiu a base do discurso dos atuais governantes e esta fórmula serviu para a divisão de nosso povo acuado pelo crescente desemprego.

O capitalista, afirma a narrativa mítica, pretende investir, mas está sufocado em função dos direitos trabalhistas oferecidos aos privilegiados que ainda possuem emprego e acrescente ao sofrimento deste inocente empresário o fato propina que consome o restante de seu capital.

A narrativa mítica possibilitou, inclusive, a naturalização da utilização da força bruta e transformação dos setores políticos populares em inimigos do Estado legitimando os meios para a punição ideológica fantasiada de justiça.

Os atuais detentores do poder político no Brasil acreditam tomar parte de uma revolução e iniciaram uma narrativa histórica na qual todos os problemas do país ficam resumidos aos primeiros anos do século 21 ponto inicial da corrupção.

O chefe revisionista delirantemente, para apoiar a narrativa mítica, criou a crença em um passado glorioso para o período iniciado em 1964 conhecido e reconhecido como ditadura militar, contudo as contradições verificadas entre as políticas econômicas do período e seu entreguismo desvairado resumiu sua adoração aos aspectos sádicos dos torturadores.

O revisionismo mítico sustenta, desta forma, as bases para o uso da força como meio de legitimar a superação do atraso econômico ocultando a contradição, quanto ao papel do Estado, no processo de organização da economia.
Precisamos aqui recordar que a ditadura militar, em seu aspecto econômico, prosseguiu e ampliou a política de dependência adotada no governo de Juscelino Kubitscheck ponto de rompimento com o nacionalismo econômico varguista.

Recordo ainda que exatamente no período que antecede ao golpe militar de 1964 o governo trabalhista de João Goulart, através das chamadas reformas de base, associava ao modelo varguista os primeiros direitos sociais ou a garantia destes em nossa história tornando-se assim um inimigo declarado das forças imperialistas.

Vejamos: a ditadura militar desnacionalizou a economia brasileira apresentando um modelo de industrialização dependente apoiando esta fórmula no planejamento estatal garantindo este o controle da energia e matéria prima.

O fracasso deste modelo apresentou-se exatamente no fato dependência das multinacionais que optaram em distribuir suas instalações em diferentes países dividindo a produção e quando o Brasil percebeu possuía apenas nominalmente uma indústria sem controlar a tecnologia ou a elaboração desta.

Este fato não foi em essência diferente do verificado na China, contudo este país além de proteger-se através de diferentes planos para superar o atraso econômico permitiu a presença do capital externo a partir de rígido controle das áreas e limites de atuação das multinacionais revelando, inclusive, um plano para o desenvolvimento tecnológico constituindo esta, em nossos dias, a principal causa das disputas com os Estados Unidos.

Retomando o revisionismo mítico; a ditadura militar foi fantasiada e apresentada como um período de glórias, contudo esta narrativa limita-se a exaltação de uma ordem obtida através do uso da violência e do sadismo dos torturadores contra todos os inimigos de um Estado submetido ao imperialismo recebendo seus governantes, ironicamente, o título de patriotas.

Na realidade durante a ditadura militar os governos submeteram-se aos ditames das multinacionais, contudo a necessidade destas de abastecerem o mercado interno e ainda a exportação criaram os meios de perversão da política econômica nacionalista transformada, neste caso,  em meio para o  financiamento da matéria prima e combustíveis do capital estrangeiro aqui instalado e foi somente por este motivo que a Petrobras, a Vale do Rio Doce não foram extintas durante a ditadura.

Como é possível verificar o erro não encontrava-se no fato intervenção do Estado na economia e sim na política econômica dependente apresentando este fato a limitação revisionista e acrítica dos míticos (ou seriam místicos?) revelando o dito patriotismo dos generais da ditadura como uma espécie de tributo às multinacionais acrescido este de vantagens pessoais, inclusive, na forma de elevados cargos administrativos nestas empresas.

Contradição das contradições o Brasil, no período posterior a ditadura, ainda conseguiu herdar os elementos garantidores para intervenção no domínio econômico a ponto de incluir na Constituição de 1988 estas garantias agora em uma estrutura voltada a superação do modelo econômico de base colonial.

Não por coincidência o discurso revisionista mítico, como forma de impedir o rompimento com o modelo de exploração de base colonial, vai enterrando a Constituição de 1988 um processo iniciado com Fernando Collor e continuado por Fernando Henrique Cardoso.

Curiosamente muitos ainda espantam-se com uma declaração, em vídeo que circula na internet, do então deputado Jair Bolsonaro defendendo o fuzilamento de Fernando Henrique Cardoso quando este extinguiu o monopólio da Petrobras.

Bolsonaro, na realidade, continua com os mesmos propósitos; defender o predomínio do capital estadunidense e simplesmente naquele momento – em função de suas conhecidas limitações – ainda não havia percebido que a entrega da empresa nacional de petróleo era necessária aos interesses do imperialismo.

Os atuais governantes foram eleitos a partir de uma farsa e as provas, agora documentais, encontram-se estampadas nas redes sociais e grandes veículos de imprensa revelando uma trama envolvendo a justiça cujo resultado primeiro foi o comprometimento da lisura das eleições de 2018 seguida da perseguição aos trabalhadores e na cassação dos direitos sociais.

A tragédia revisionista irracionalista verifica-se ainda na destruição da pesquisa e consequente criação tecnológica reduzindo o Brasil a condição de vendedor de matéria prima e outros primarismos criando, via imprensa dita grande, a ilusão de tempos melhores.
Os resultados práticos da política econômica dos mistificadores apresentam suas primeiras consequências verificando-se o aumento da insatisfação popular diante do desemprego gigantesco de nossos dias, da destruição da educação e saúde pública.

Contudo ainda temos a falta de um projeto claro de superação de nosso atraso e rompimento com o modelo de submissão ao imperialismo e falando francamente estamos presos, em determinada medida, à crença de uma salvação inclusive resultante de “bombas” divulgadas através dos mesmos meios e pessoas responsáveis pela criação do revisionismo mítico base de todo este terrível processo de destruição do Brasil.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

A NECESSÁRIA INTERVENÇÃO ESTATAL NA ECONOMIA Wladmir Coelho





A NECESSÁRIA INTERVENÇÃO ESTATAL NA ECONOMIA

Wladmir Coelho

Predominam nos chamados grandes veículos de comunicação do Brasil o apoio às políticas de destruição dos instrumentos necessários ao rompimento com o modelo econômico de base colonial.

Nas linhas que seguem vamos verificar o quanto os ataques violentos à Petrobras somados a ânsia de entrega do sistema de eletricidade aos oligopólios internacionais revelam um projeto de destruição da economia brasileira e sua submissão aos interesses do imperialismo estadunidense.

Vejamos, inicialmente, o caso da concentração mundial do mercado automobilístico e sua ligação com o desenvolvimento de novas tecnologias energéticas, inteligência artificial e o papel do Estado no processo de pesquisa e desenvolvimento.  
  
A indústria automobilística em Minas Gerais; a Fiat-Chrysler (FCA) anunciou o investimento de R$ 16 bilhões no Brasil até 2024 empregando a metade deste valor na unidade de Betim gerando, segundo informações governamentais, 16 mil empregos diretos e indiretos.

Em Minas Gerais o anúncio do futuro investimento foi acompanhado de ações fiscais apressando-se o Sr. Zema em assinar um decreto isentando do Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA) os veículos fabricados no estado e movidos a gás natural veicular somado ao tratamento diferenciado oferecido a FCA na cobrança do ICMS prometendo a empresa gerar 9200 empregos diretos e indiretos.

Nos Estados Unidos verificou-se situação semelhante na cidade de Detroit anunciando a FCA um investimento de US$ 4,5 bilhões com promessa de gerar 6400 empregos recebendo, como subsídio oficial, US$ 223 milhões ficando metade deste valor condicionado a manutenção dos empregos, sem redução de salário, por pelo menos 10 anos.

No Brasil as condições para efetivação dos incentivos não ficaram claras excetuando o citado decreto de renúncia fiscal do governo mineiro acompanhado, segundo a Agência Minas, de um termo de cooperação técnica envolvendo a Companhia de Gás de Minas Gerais (Gasmig) e a FCA para incentivar o uso de combustíveis sustentáveis.

O governo de Minas incluiu no pacote de apoio aos investimentos a proposta de amparo a projetos de formação na área de engenharia automotiva através de programas de visitas técnicas e diferentes cursos denominando a iniciativa de parceria em educação, pesquisa e desenvolvimento.

Até aqui nenhuma novidade, afinal desde meados dos anos 50 as indústrias automobilísticas estrangeiras condicionam a instalação no Brasil aos mesmos benefícios oferecidos, em 2019, à FCA.

Todo este movimento da FCA apresenta em sua base a disputa pelo controle da tecnologia necessária à implantação definitiva dos veículos movidos a eletricidade, GNV, células de combustíveis sem esquecer os chamados veículos autônomos e a garantia de controle de mercados para o consumo de seus produtos.

Nesta disputa a China apresenta-se em vantagem empregando o governo daquele país, nos últimos 10 anos, aproximadamente US$ 60 bilhões somente no setor de carros elétricos.

O planejamento econômico e consequente investimento do governo chinês visando a autonomia tecnológica no setor de combustíveis possibilitou a transformação da cidade de Shenzhen em um polo mundial de tecnologia.

Shenzhen conta com 12 milhões de habitantes e possui toda sua frota de ônibus movidos à eletricidade e iniciou o processo de conversão do combustível do serviço de táxi de GNV para baterias elétricas sempre utilizando tecnologia resultante ou aprimoradas em função das pesquisas nacionais.

No setor de carros elétricos a China possui uma vantagem adicional; aproximadamente 40% do custo de fabricação de um carro elétrico encontra-se na bateria e a China controla mais de 60% do mercado de componentes incluindo o lítio.

Planejamento econômico, intervenção do Estado na economia, ao contrário do discurso oficial brasileiro, não constitui atividade exclusiva dos países comunistas. No início de 2019 o ministro da economia da Alemanha Peter Altmaier, um democrata cristão, apresentou um plano econômico denominado “Estratégia Industrial 2030”.

Dentre as estratégias apresentadas no citado plano verifica-se o aumento do conteúdo nacional no setor industrial local e europeu, transformação da sobrevivência das grandes empresas alemãs - Siemens, Thysssen-Krupp, fabricantes alemães de automóveis e Deutsche Bank – em interesse político e econômico nacional.

Quanto a aquisição de empresas locais por grupos estrangeiros – em casos relevantes – o plano determina que o Estado deve participar como acionista criando um mecanismo de participação oficial direta, ou seja, os alemães pretendem estatizar. Esta estatização, segundo o plano, deve ocorrer necessariamente nos setores de células de baterias, inteligência artificial e veículos autônomos.   

A Constituição do Brasil oferece aos governantes as bases legais para a criação do planejamento econômico com essas mesmas bases para o desenvolvimento fundamentadas em um plano econômico voltado para o desenvolvimento nacional, contudo caminhamos no sentido contrário ao observado nas economias desenvolvidas.

A destruição do sistema de pesquisa brasileiro através do corte orçamentário recentemente determinados nas universidades públicas repetindo-se a prática na educação básica – responsável inclusive pelo ensino técnico - aprofunda a distância tecnológica entre o Brasil e os centros desenvolvidos.

Quando observamos a histeria contra a Petrobras (importante centro de fomentação para o desenvolvimento tecnológico no setor energético) somada a campanha alucinada pela    privatização, no caso de Minas Gerais, da CEMIG e GASMIG temos a clareza do projeto de destruição dos meios para a intervenção na economia nacional.

Em recente discurso na Federação das Indústrias o Sr. Zema classificou a CEMIG como “entrave” ao desenvolvimento de Minas Gerais apontando com clareza a prática econômica de seu governo, amparada na renúncia fiscal pura e simples, ignorando a preservação dos meios para criação de uma política econômica em condições de promoção do desenvolvimento da tecnologia nacional.

O governo de Minas, seguindo os passos do senhor Bolsonaro, promove profundos cortes na pesquisa inviabilizando o funcionamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) implantando o projeto do atraso.

A política de submissão econômica ao imperialismo constitui hoje a prática dos senhores Bolsonaro, General Mourão, Romeo Zema. A continuar a com este modelo em breve retornaremos as condições anteriores ao período Vargas cuja política de intervenção estatal na economia criou os instrumentos, incluindo a Petrobras, necessários para o rompimento com o modelo econômico de base colonial.      




domingo, 12 de maio de 2019

AS CONTRADIÇÕES DO MODELO UBER Wladmir Coelho




AS CONTRADIÇÕES DO MODELO UBER

Wladmir Coelho

A estreia da Companhia UBER no mercado de ações, no último dia 10, apresentou resultados bem abaixo das expectativas de seus controladores amargando, o valor dos papéis, uma queda de 8% ao longo do dia revelando um dos piores desempenhos de uma empresa estreante na bolsa.

O anúncio da oferta pública das ações da companhia UBER foi antecedido de vibrantes comentários e elogios à ideologia da organização cujo modelo de relação com os trabalhadores, eufemisticamente denominados de colaboradores, foi saudado pelos modernos de plantão como o “futuro do trabalho.”

A uberização do trabalho, fenômeno verificado a partir das plataformas digitais, vai criar os meios para extinguir definitivamente o emprego formal associado este a “burocracia” e ausência de liberdade empresarial em função de limites estabelecidos através das legislações trabalhistas; repetiam os neoliberais em palestras, livros, vídeos e noticiário em geral.

Regozijavam-se os escravocratas do Vale do Silício com o fim da assistência médica, salário mínimo e outros fatores de limitação da livre ação da mão invisível anunciando um novo significado para a organização do trabalho.

Enquanto isso a economia apresentava-se de forma cruel: segundo a revista In These Times a realidade não corresponde a expectativa ficando o setor de plataformas de serviço responsável por apenas 1% do total da mão de obra empregada nos Estados Unidos.

Tratando em termos práticos a ideologia neoliberal, com seu cada um por si, repete insistentemente o mantra da incompetência estatal clama por liberdade plena, contudo os capitalistas não conseguem sobreviver sem o apoio ou controle definitivo do Estado.

Vejamos o caso do emprego nos Estados Unidos; naquele país os grandes empregadores encontram-se associados ao Estado e claramente dependentes do setor militar existindo somente na indústria bélica - cujo funcionamento depende diretamente da contratação para fabricação de tanques, navios, aviões e outros - 2,4 milhões de trabalhadores. 

A presença do Estado no setor econômico agiganta-se quando verificamos os 3,2 milhões de funcionários civis e militares empregados no Departamento de Defesa que segundo a revista Forbes representa o maior empregador do mundo.

O Departamento de Estado apresenta-se ainda como o maior comprador individual de petróleo do mundo garantindo, de forma incontestável, o emprego para aproximadamente 5.6% da mão de obra ativa dos Estados Unidos segundo o American Petroleum Institute.

Estes números do setor petrolífero explicam, em grande parte, a obsessão estadunidense em impor o seu entendimento particular de democracia aos países produtores de petróleo estejam estes na América do Sul, na Ásia ou em qualquer outro ponto do planeta.

Retomando o fato UBER; a folha de São Paulo apontou como causa da frustração com as ações da companhia a dependência “de um influxo generoso de capital privado para bancar a expansão acelerada e a concorrência feroz em que estão envolvidas.”  

A clara tradução do fracasso, ao verificarmos a justificativa da Folha de São Paulo, encontra-se exatamente na diferença entre o discurso e a prática neoliberal cultuado e defendido nos grandes veículos de comunicação e repetido por governantes militares e civis do Brasil, ou seja, o capitalismo não tolera riscos, detesta a concorrência e precisa desesperadamente da presença do Estado para sobreviver.

O modelo UBER vai perdendo ainda mais de sua sedução neoliberal diante da insatisfação de seus “colaboradores” com a ausência de regras trabalhistas e devemos recordar que esta desregulamentação constitui a base para a continuidade da companhia.

Cisões no modelo verificam-se através da organização dos motoristas em sindicatos e associações para exigir a regulamentação trabalhista destacando-se a recente greve mundial dos motoristas de UBER somados a conquista de um rendimento mínimo (uma espécie de salário mínimo) em Nova York.

A reforma trabalhista no Brasil seguiu exatamente o modelo UBER e durante a campanha eleitoral seu aprofundamento foi claramente proposto pelo candidato direitista que defendeu abertamente o fim do que denominou de privilégios da classe trabalhadora apoiado por seu vice general um defensor radical da extinção do 13º salário.

As oligarquias capitalistas, o famoso 1%, revelam-se famintas pela ampliação do controle dos recursos estatais e para este fim atacam sem piedade os direitos sociais. O Brasil, neste momento, é atacado de forma violenta através de ações que incluem desde a extinção da educação pública a destruição dos serviços estatais de saúde.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

INTERVENÇÃO NO DOMÍNIO ECONÔMICO E DIREITOS SOCIAIS - Wladmir Coelho




INTERVENÇÃO NO DOMÍNIO 

ECONÔMICO E DIREITOS SOCIAIS

Wladmir Coelho

Em 2017, segundo dados da Fundação Getúlio Vargas, existia um déficit de 7,78 milhões de moradias no Brasil atingindo, principalmente, aquelas famílias que sobrevivem com até 3 salários mínimos.

Os números assustam ainda mais quando verificamos uma pesquisa da Fundação João Pinheiro de 2015 revelando o comprometimento de 30% da renda de 3 milhões de famílias brasileiras com o pagamento de aluguel.

O desemprego de 13 milhões de brasileiros somados aos 28 milhões de subempregados, o aumento de 8,32% nos últimos 12 meses do Índice Geral de Preço Mercado (IGP-M), utilizado como referência nos reajustes dos aluguéis, revelam o quanto ainda pode aumentar o dito déficit habitacional no Brasil.

O Estado brasileiro, enquanto isso, é afastado definitivamente do processo para a solução do problema habitacional preferindo, o governo, radicalizar o discurso do livre mercado abandonando, inclusive, o principal programa de financiamento de moradias o Minha Casa Minha Vida.

Neste sentido devemos recordar a determinação constitucional que classifica como direitos sociais, dentre outros, a moradia e o emprego existindo neste caso a necessária execução de um planejamento e consequente plano econômico prevendo e criando os meios necessários para sua efetivação.

 Os atos governamentais, ao contrário, apresentam-se no sentido de total desrespeito aos princípios legais incluindo declarações e ações de fundo ideológico em total desacordo com a Constituição.

Neste sentido o Sr. Jair Bolsonaro afirmou, durante a solenidade de assinatura da medida provisória da “Liberdade Econômica”, e o jornal Valor Econômico publicou, um trecho ilustrativo do momento esquizofrênico no qual encontra-se mergulhado o Brasil: “o linguajar meu, de tirar o Estado do cangote [do cidadão], foi traduzido agora por essa equipe econômica maravilhosa e a Casa Civil, que vai ajudar muita gente no Brasil.”

Esta história do Estado no “cangote” necessita de uma tradução; não existe nesta fala do Sr. Bolsonaro a mínima preocupação com o cumprimento das determinações constitucionais de garantia a plena efetivação dos direitos sociais, ao contrário, temos o discurso de favorecimento do capital em detrimento do social.

A negligência do governo transfere para as ditas leis do mercado as condições de acesso, por exemplo, a moradia restringindo ou mesmo proibindo aos trabalhadores um direito previsto na Constituição.

Em termos reais o “cangote” do capital será aliviado enquanto o “lombo” do trabalhador será surrado diante da proibição de qualquer restrição, por parte das autoridades econômicas, na liberdade de definição empresarial no preço de produtos e serviços, como consequência de alterações da oferta e da demanda no mercado não regulado, ressalvadas as situações de emergência ou calamidade pública conforme determinado no III do artigo 3º da medida provisória da “Liberdade Econômica.”

Neste ponto entendemos a aliança entre o neoliberalismo com o medievo fundamentalismo religioso, cujo resultado denomina-se bolsonarismo, no qual somente o armagedon justifica a intervenção do Estado no domínio econômico.

Este fanatismo neoliberal vai produzindo em nosso berço esplendido e mundo afora as terríveis consequências diariamente observadas nas ruas das cidades com visível aumento da população sem casa.

Nos Estados Unidos, pátria dos atuais governantes militares e civis do Brasil, os bairros considerados nobres observam um aumento de acampamentos de sem casa incluindo o uso dos jardins das mansões de Los Angeles enquanto os moradores de San Francisco reclamam da quantidade de fezes humanas nas ruas.

Meio milhão de sem casa encontram-se nas ruas da matriz segundo o site de informações para o mercado Zero Hedge revelando ainda o quanto as notícias de crescimento econômico dos Estados Unidos merecem uma verificação mais aprofundada.

A pequena – mental e estrutural – burguesia brasileira deveria atentar para estes números e fatos originários da matriz e perceber que os ricos de lá possuem condições de transferir suas nobres residências para pontos mais tranquilos enquanto a dita classe média de nosso torrão amado vai perdendo sua varanda gourmet em função do desemprego, atrasos nas prestações e juros elevadíssimos dos bancos contribuindo, deste modo, para o aumento no índice daqueles sem casa ou, na melhor das hipóteses, dependentes da casa de parentes ou do pagamento de aluguel.

O discurso neoliberal bolsonarista turvou, durante algum tempo, as condições de análise de muitos e proporcionou uma terrível campanha contra os direitos sociais e a necessária intervenção do Estado na economia para criar os meios necessários à sua aplicação.

A realidade vai revelando o quanto eram falsas as promessas neoliberais de um mundo maravilhoso após a entrega da Petrobras e mesmo do fim dos direitos trabalhistas como forma de superar o desemprego.

Na realidade a entrega da Petrobras a sanha do mercado comprometeu os meios para utilizar o poder econômico decorrente da exploração petrolífera para financiar políticas de habitação, educação e saúde.

Agora surgem estes mesmos farsantes neoliberais do governo prometendo o paraíso com a submissão total de nossa economia ao domínio sem regras do capital entregando ao povo um país de fome, ignorância e privilégios aos ricos.

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