domingo, 30 de janeiro de 2011

Crise no Egito, petróleo e revolução





Crise no Egito, petróleo e revolução 


Wladmir Coelho

    

 

            O Egito possui 18,2 bilhões em reservas provadas de petróleo existindo a expectativa de comprovação para mais 2 bilhões segundo informações do Ministério do Petróleo revelando estes números a pequena influência do país neste setor da economia quando comparado, por exemplo, as reservas gigantescas da Líbia de 56 bilhões de barris.

            Entretanto, tratando-se de petróleo, não podemos desprezar o valor estratégico do controle de qualquer volume de reservas ocupando o Egito a condição de importante fornecedor para Israel país vital para o controle estadunidense no Oriente Médio e, por conseqüência, de sua segurança energética. 

            O Egito, desde o acordo de paz assinado em 1979, tornou-se obrigado a fornecer petróleo para Israel existindo, dentre os motivos que levaram as últimas manifestações contra o ditador  Mubarack, um assalariado dos EUA, a denuncia de condições vantajosas para o comprador nesta negociação.

            O transporte de petróleo para a Europa também depende da estabilidade política do Egito possuindo este país o controle do Canal de Suez cujo fechamento poderia aumentar em 10 mil quilômetros a viagem dos petroleiros.  Imaginem as consequências do aumento no valor do transporte e conseqüente elevação dos preços dos combustíveis no velho continente atualmente mergulhado em profunda crise econômica.

            Assim para  o capital dos Estados Unidos e União Européia a manutenção de um governo simpático torna-se imperativo. Desta forma as manifestações contra o ditador Osnir Mubarack deveriam, na ótica destes interesses, resultar no máximo em substituição dos nomes mantendo o atual modelo econômico.

            Neste ponto, a manutenção do modelo econômico, encontraremos pronto o discurso ideológico liberal através de suas agências de classificação afirmando e provando através das estatísticas de sempre as “maravilhas” da desregulamentação econômica enquanto a população enfrenta uma forte alta nos alimentos, desemprego, baixos salários e cortes no orçamento. Como sabemos todos estes itens, somados a exigência de liberdade política, tornaram-se os causadores dos protestos populares.

            Este sofrimento da população egípcia mostra-se em contraste aos indicadores econômicos apresentando o Egito  6% de crescimento em 2010 levantando a empolgação do sistema financeiro internacional que passou a exigir, inclusive, a admissão do país africano no grupo conhecido por BRIC. Neste clima de empolgação financeira a Fitch Ratings, importante agência de classificação de risco, através do seu diretor para o Oriente Médio e África Richard Fox, anunciou, em 13 de janeiro deste ano de 2011, a promoção do Egito em seus índices justificando que: “A economia do Egito mostrou-se resistente a crise global e está agora no modo de recuperação” e continua em seu otimismo: “As reservas [do Egito] estão crescendo e apresentam um pequeno déficit em conta corrente”, mas esta estabilidade poderia sofrer perturbações considerando-se a possibilidade de eleições este ano afirmando: “As eleições sugerem um aumento das incertezas políticas”. Espantoso, mas verdadeiro. Os interesses financeiros não combinam com mudanças democráticas a estabilidade dos grupos econômicos internacionais depende de governos autoritários e/ou submissos ao capital. Incrível !

            No Egito, infelizmente, o desemprego, a fome  desconsideraram os encantados índices das agências e levaram o povo às ruas do Cairo ligando de forma obvia estes problemas a figura do ditador. Os grupos financeiros, União Européia e Estados Unidos defendem este discurso e tentam conduzir o problema reduzindo as exigências populares  a mera substituição da nefasta figura de Osnir Mubarack.

            Como parte desta manipulação o termo democracia fica restrito a condição de realizações periódicas de eleições excluindo-se o debate em torno da evidente falência do modelo desregulamentador e suas exigências de desnacionalização e reprimarização econômica. No Egito Osnir Mubarack radicalizou o processo desregulamentador iniciado por Anuar Sadat enterrando o modelo nacionalista de Estado Empresário instituido por Gamal Nasser nos anos 50.          A figura de Nasser, de forma evidente, acrescenta uma tradição nacionalista e antiimperialista servindo de combustível para as reivindicações populares e nota-se, nas imagens dos protestos, a presença de muitas fotografias do líder nacionalista.  Todavia durante os trinta anos de ditadura o conceito de democracia ensinado nas escolas e difundido por muitas ONGs locais encontra-se influenciado pela doutrina do Project on Middle East Democracy (POMED) instituição financiada com recursos do governo dos Estados Unidos e no Egito predomina, do ponto de vista populacional, jovens nascidos após a  morte de Nasser em 1970 desconhecendo, portanto, alternativas de modelos políticos e econômicos além do apresentado através dos ensinamentos importados dos EUA.

            Neste quadro apresenta-se em vantagem a figura de Mohamed ElBaradei simbolizando o modelo de democracia do POMED, ou seja, um líder oposicionista moderado defensor de reformas pontuais no modelo econômico ( leia-se introduzir políticas sociais compensatórias) possuindo, principalmente, condições de garantir a segurança de Israel em natural associação aos interesses dos EUA notadamente nos assuntos relativos ao enfraquecimento do Irã.

            Baradei, considerado moderno demais durante o governo Bush, encaixa-se perfeitamente na proposta do governo Obama para o norte da África e Oriente Médio podendo representar o “novo” considerando-se a sua posição quanto a invasão do Iraque negando-se a reconhecer a existência de armas de destruição em massa preocupado, atualmente, em encontrar os meios para desmontar o projeto nuclear do Irã. Quanto ao petróleo Baradei busca os meios de criar uma agência internacional de regulação energética fazendo coro aos defensores da governança mundial via interesses dos oligopólios.

            Este quadro, considerando-se as questões econômicas, revela a crise do neoliberalismo, entretanto não surgiu de forma organizada internacionalmente uma proposta para atender e mobilizar a população trabalhadora rumo a defesa de seus interesses gerando o consenso, pelo menos neste momento,  em torno de medidas compensatórias permitindo a sobrevivência deste moribundo modelo.   

2 comentários:

Nôa disse...

o oriente medio muito complexo. É bem difícil estar bem informado sobre essa região.

Thais Madeira disse...

A questão toda acaba sendo a de estabelecer governos 'dóceis' (submissos) para que o controle energético prossiga, e o pior é que a população acaba ficando de fora. E o pacotão ideológico importado dos EUA também nos afeta. Bom texto, é sempre bom ficar por dentro das questões energéticas ao redor do mundo e do Brasil.

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