segunda-feira, 22 de abril de 2019

OURO PRETO: O DIA DE TIRADENTES Wladmir Coelho




OURO PRETO:

O DIA DE TIRADENTES

Wladmir Coelho

Nos anos 60 o deputado operário, Sinval Bambirra, preocupado com as ameaças de incêndio e consequente destruição do patrimônio histórico e cultural de Ouro Preto apresentou um projeto de lei criando uma unidade do Corpo de Bombeiros naquele município.

Os representantes das classes dominantes do Estado colocaram-se de forma contrária à iniciativa do parlamentar questionando estes desde as necessidades técnicas para instalação dos bombeiros em Ouro Preto, a capacidade de um tecelão propor formas de preservação do patrimônio histórico, o controle dos gastos públicos sem contar a desconfiança da interferência de Moscou no dito projeto. Afinal a cor dos Bombeiros é vermelha.

Iniciei este texto, recordando uma conversa com o líder operário Sinval Bambirra, para ilustrar a indisposição da classe dominante de Minas e do Brasil com a preservação do patrimônio histórico e por consequência com a cultura e educação.

Afinal os donos do poder apenas ocupam esta condição em função da submissão aos interesses imperialistas traduzindo estes em prática econômica de base colonial e aqui resgato mais um ensinamento; o professor Washington Albino explicando o que é colônia: trata-se de um lugar do qual retiram-se coisas.

Ao propor a proteção e preservação da cidade símbolo de um movimento político contrário a exploração colonial um deputado operário questionava o modelo econômico e mostrava aos trabalhadores as origens históricas do atraso.

Neste ponto amplia-se a associação do termo cultura e desta ao patrimônio histórico para além da condição material passando a incluir os meios para o entendimento dos modelos de organização social necessitando, para este objetivo, a formação de pesquisadores e financiamento de pesquisas.
A elite econômica nacional, diante desta situação, prefere o discurso do mecenas ao modo do império elegendo aqui e ali a sua arte oficial criando suas fantasias destruindo, ignorando, criminalizando ou marginalizando a cultura de nosso povo entendendo esta como ameaça ao modelo instituído.

Os recentes atos governamentais que retiram a Petrobras e o Sistema S do cenário cultural, o corte orçamentário na educação, nas pesquisas apresentam como objetivo criar os meios necessários para a preponderância de uma cultura oficial de base fundamentalista religiosa e econômica.

O dia de Tiradentes

Seguindo a linha colonialista os discursos oficiais do último dia 21 de abril apresentaram-se de forma vazia com vivas à liberdade e a democracia com repetição protocolar do nome do mártir da inconfidência.

O Sr. Jair Bolsonaro foi convidado, mas preferiu passear de motocicleta no Guarujá restando ao cerimonial improvisar o Sr. Romeo Zema como orador do evento para o qual não revelava nenhuma simpatia.

Durante a leitura do discurso o Sr. Zema não conseguiu pronunciar, sem embolar, o nome civil do herói homenageado e tropeçava seguidamente na palavra pátria. Freud explica? seria uma intervenção sobrenatural? não tenho respostas.

Concretamente temos no fato, tropeços na fala oficial, a dificuldade da conciliação entre defesa da soberania nacional, aspecto imediatamente associado ao movimento dos inconfidentes, aos princípios entreguistas presentes nas ações governamentais.

A contradição e a disputa entre o modelo cultural importado pelos governantes e aquele fruto de nossa formação histórica manifestou-se de forma clara, durante a celebração em Ouro Preto, a ponto da fala oficial ocorrer de forma quase escondida com um ato cuidadosamente esvaziado como preparando a segunda condenação de Tiradentes.

Esta tentativa de impor uma segunda condenação, todavia, ocorre em momento posterior a concretização da soberania política exigindo, por parte de seus defensores, uma profunda alteração cultural incluindo a transformação da estrutura jurídica.

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