quinta-feira, 23 de abril de 2020

PLANO MARSHALL BOLSONARISTA, QUAL A SURPRESA?




* PLANO MARSHALL BOLSONARISTA, QUAL A SURPRESA?

*GENERAIS NACIONALISTAS EXISTEM SOMENTE NA IMAGINAÇÃO DOS INGÊNUOS

* QUANTA DESINFORMAÇÃO NOS MEIOS DE INFORMAÇÃO

* VAMOS ESTUDAR HISTÓRIA?

Por Wladmir Coelho

1 – Os jornais noticiam a criação de um grupo de trabalho em Brasília, chefiado pelo general Braga Neto, para “coordenar ações estruturantes e estratégicas para recuperação, crescimento e desenvolvimento do país” recebendo este o apelido de Plano Marshall.

2 – Os inocentes, ingênuos, otimistas ou simplesmente oportunistas de sempre aproveitaram a ocasião para os vivas costumeiros ao general ponderado, “nacionalista” e tutor do incontrolável sr. Bolsonaro apagando, estes oportunistas, de seus escritos e vídeos do YouTube o tenebroso 19 de abril data das manifestações concertadas realizadas nos Estados Unidos e Brasil defendendo estas a prática cruel da imunidade do rebanho merecendo, na capital brasileira, uma manifestação em frente ao Comando do Exército pedindo a volta da ditadura militar merecendo o referido episódio um discurso do tutelado pelo militar patriota.

3 – Esta prática de vivas ao “presidente de fato”, assim referem-se os oportunistas ao general Braga Neto, encontra-se amparado na celebre frase do grande Chacrinha: “eu vim para confundir e não para explicar” e cumpre, nos vídeos e textos oportunistas, a função de desmobilizar o povo criando a ilusão de uma disputa interna no governo entre “nacionalistas” e “entreguistas” agora simbolizada na criação de um grupo de trabalho apelidado, ao modo colonizado, de “Plano Marshall” associando o projeto de dominação imperial ao nacionalismo econômico.

4 – Assumem os oportunistas seu tradicional apoio ao projeto de dominação imperialista utilizando o discurso de pertencimento do Brasil a cultura ocidental, democrática e cristã entendendo esta a partir da organização social estadunidense reforçando os fundamentos ideológicos para a submissão cultural, notadamente dos grupos dominantes, proporcionando a sustentação do modelo econômico de base colonial. A utilização de termos associados aos interesses imperialistas, no caso deste texto refiro-me ao Plano Marshall do general patriota, transformando estes em práticas de salvação revelam o quanto encontram-se colonizados vastos setores ditos progressistas incapazes de uma análise política, social, econômica a partir da realidade brasileira.  

5 – Para entender esta afirmativa precisamos recorrer a história e retornar ao ano de 1947 quando ficam estabelecidas as bases da política externa dos Estados Unidos durante a Guerra Fria  sistematizadas na chamada doutrina Truman (Harry Truman foi presidente dos Estados Unidos entre 1945 e 1953) amparada no velho e carcomido discurso do “destino manifesto”, ou seja, o mito dos EUA como nação escolhida por Deus para levar ao mundo à democracia e seus valores civilizatórios ocidentais, naquele  momento histórico resumida ao objetivo de barrar o avanço do eterno perigo comunista, valendo-se, para este fim, da manutenção dos governos fascistas espanhol e português, a legitimação da monarquia fascista Grécia – este, ao lado da Turquia, merecedor dos primeiros empréstimos e apoio militar estadunidense contra o povo -  e combate violento aos movimentos de reivindicação dos trabalhadores sempre em nome da liberdade, principalmente, econômica.

6 – Neste mesmo ano de 1947 Winston Churchill divulga o termo “cortina de ferro” criando uma separação de base ideológica entre os países europeus “ocidentais” e aqueles socialistas agora entendidos como “orientais” distinguindo-se esta classificação na associação da liberdade ao capitalismo a ser defendido – enquanto base dos valores democráticos, cristãos e ocidentais – a partir do poder militar dos Estados Unidos devidamente apoiado pela Agência Central de Inteligência – CIA – também criada em 1947 -  expandindo a mistificação salvífica estadunidense assumindo no Brasil sua forma definitiva a partir da criação da Escola Superior de Guerra, em 1949, funcionando esta como centro de sistematização e difusão dos elementos presentes na doutrina Truman aos militares, meios empresariais, acadêmicos, jornalistas.    

7 – A doutrina Truman – fica fácil perceber – amplia a presença do setor industrial bélico na economia estadunidense uma continuidade, em relação a proteção da indústria local, da economia de guerra revelando em sua fundamentação a dependência do capital dos recursos estatais e tratando-se de um império a necessária existência de uma força militar moderna em condições de atacar a qualquer momento com as armas mais avançadas, independentemente da localização, eventuais governos contrários aos interesses imperialistas.

8 – Aqui um parêntese; enquanto na Europa o discurso da liberdade mantinha no poder os fascistas no Brasil o governo ditatorial de Getúlio Vargas, de postura nacionalista, era derrubado a partir de um golpe militar acusado de aproximação com os comunistas, sindicatos e não subordinação aos interesses estadunidenses. O chefe do movimento golpista, general Eurico Dutra, era daqueles convertidos de admirador do fascismo em amante da liberdade e devotado seguidor do destino manifesto. Eleito presidente o general democrata – governando com a Constituição da ditadura de 1937 naturalmente ignorando os aspectos nacionalistas - tratou de arrochar os salários, reprimir de forma violenta os defensores do monopólio do petróleo, chegando a cassar o Partido Comunista Brasileiro, romper relações diplomáticas com a União Soviética e abrir ao máximo a economia brasileira aos interesses do imperialismo.

9 – Voltando a Doutrina Truman; para concretizar uma política externa expansionista, como verificamos, o imperialismo estadunidense estabelece um projeto sustentado a partir de uma ideologia salvífica difundida esta com apoio da CIA encrustando nos países subordinados seus respectivos centros de doutrinação devidamente acompanhado do crescimento do poder militar sustentado a partir de uma indústria gigantesca. Aos aspectos ideológicos e de força acrescenta-se a presença econômica através de empréstimos e doações sempre associados à troca comercial.

10 – O plano Marshall – nome fantasia do Plano de Recuperação Europeia -  constitui parte desta estratégia e foi idealizado pelo general George Catlett Marshall enquanto ocupava o cargo de Secretário de Estado de Harry Truman destinando a 16 países europeus US$ 13 bilhões – na época o equivalente a 2% do PIB estadunidense – destinados em sua maior parte, segundo dados do site InfoMoney em 25 de março, ao Reino Unido com US$ 3,2 bilhões, França US$ 2,7 bilhões, Itália  US$ 1,5 bilhão e parcela ocupada pelos Estados Unidos e Reino Unido da Alemanha com US$1,4 bilhão. O mesmo site informa a destinação dos recursos, em sua maior parte, para a importação de produtos dos próprios Estados Unidos a saber; 60% para compra de alimentos e insumos para produção agrícola e industrial, 16,5% em combustíveis, 16,5% em máquinas industriais e veículos e 7% com gastos de transporte efetivados com a Marinha Mercante.

11 – O plano Marshall, como verificado nos números acima, a partir do incentivo estatal aos setores produtivos dos Estados Unidos notadamente a sua indústria pesada e agricultura beneficiando-se esta enquanto o equivalente europeu recuperava-se – veja bem recuperava-se – dos efeitos destrutivos da guerra. Neste ponto temos aqui a observar ou comparar esta situação com aquela verificada no mesmo período na China país ao qual foi oferecido, através do mesmo general Marshall, uma proposta semelhante antes mesmo da oficialização do acordo europeu.

12 – O general Marshall, contudo, não conseguiu o mesmo sucesso e neste ponto devemos considerar e entender a diferença entre recuperar um parque industrial e tecnológico e construir e desenvolver um projeto de industrialização e modernização da agricultura – este era o principal ponto – na China em busca da superação de seu atraso e principalmente das dificuldades na segurança alimentar.

13 – A China rejeita o acordo com os Estados Unidos não em nome da ideologia e sim amparada na proposta de construção de sua soberania e pouco seria útil um governo revolucionário dependente de alimentos importados e destes as consequentes intervenções econômicas externas na política interna tornando nulo o rompimento com o modelo imperialista.

14 – Os resultados positivos do Plano Marshall para a retomada da economia europeia  encontram-se ainda hoje em debate e apesar dos elevados índices de crescimento durante a vigência – 55% em quatro anos -  existindo uma atenção especial a condição de associação entre os capitais dos diferentes países beneficiados com aquele sediado nos Estados Unidos verificando-se ainda, através desta associação, o acesso e controle estadunidenses das matérias primas – incluindo petróleo – presentes nas antigas colônias do Reino Unido, Espanha, Portugal, França e demais potências coloniais existindo ainda no caso da Alemanha a permanência do controle das empresas em mãos da mesma burguesia responsável pela ascensão do nazismo controle este, naturalmente, associado ao capital imperial.

15 – Ao Brasil, como podemos perceber, nada foi oferecido com relação aos alegados benefícios da ajuda do Plano Marshall a não ser uma oferta de equipamentos militares, durante o governo do presidente Getúlio Vargas, como forma de garantir a participação brasileira na guerra da Coreia no inicio dos anos 1950 como sabemos um conflito ainda não terminado em sua plenitude e resultado dos interesses do capitalismo em aproximar e garantir a presença na Ásia como forma de limitar a China.

16 – O presidente Vargas, apoiado por vastos setores da sociedade incluindo os militares nacionalistas liderados pelo então ministro da guerra general Stilac Leal, recusaram a participação brasileira no conflito revelando uma política externa no mínimo independente. Os resultados desta posição sabemos todos; o general Stilac Leal foi retirado do ministério terminando Vargas da forma que todos sabemos. Eis uma oportunidade para o entendimento do conceito de militar nacionalista inclusive percebendo a postura de um general não formado a partir da doutrina elaborada na Escola das Américas e traduzida aqui de forma insistente e permanente ainda em nossos dias explicando este fato a postura plácida diante de protestos nas portas dos quartéis exigindo um governo de força, autoritário reprimindo qualquer ameaça aos interesses do império igualzinho em 1964.

17 – Em termos de aproximação ou acordos de ajuda dos Estados Unidos coube ao Brasil e demais países da América Latina, no início dos anos 1960 durante o governo de John Kennedy, a famosa Aliança para o Progresso construída na base da doação de leite em pó o programa apresentava como fundamental ao combate do eterno monstro comunista – naquele momento localizado em Cuba -  o discurso da melhoria das condições de vida da população sempre mantendo o cuidado de sacramentar o modelo capitalista atribuindo ao crescimento “excessivo” da população o problema da distribuição de renda desdobrando esta ação nos programas de esterilização em massa – hoje temos o discurso da imunidade do rebanho -  enquanto no campo ideológico desembocou na construção de um modelo de escolarização recentemente ressuscitado sem falar na ênfase na formação do técnico pela técnica desvalorizando a pesquisa e desenvolvimento tecnológico.

18 – Em termos conclusivos devemos observar o quanto ainda necessitamos de aprofundar o debate a respeito do conceito de nacionalismo econômico para os países atrasados aparecendo o caso brasileiro acrescido de um entendimento dos elementos históricos responsáveis pela solidificação ideológica do imperialismo a ponto de existirem associações ingênuas entre os meios utilizados para a reprodução deste como forma de superação do atraso.

19 – O exemplo desta ingenuidade revela-se na fantasia pueril de associar qualquer medida intervencionista por si a condição de rompimento com o modelo entreguista esquecendo o quanto o Estado brasileiro é utilizado para exatamente garantir e legitimar as práticas de espoliação seja através da destruição do mercado interno, remetendo sem limites recursos ao exterior e agora criando os meios para comprar papeis das empresas e dividas do império. O Brasil não precisa de um plano Marshall e sim de uma proposta de rompimento com o modelo imperialista resgatando assim a sua soberania.              

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