segunda-feira, 13 de abril de 2020

PANDEMIA E AULAS ONLINE; A NEFASTA SUBMISSÃO DOS ESTADOS AOS INTERESSES DO CAPITAL INTERNACIONAL






* PANDEMIA E AULAS ONLINE; A NEFASTA SUBMISSÃO DOS ESTADOS AOS INTERESSES DO CAPITAL INTERNACIONAL

Por Wladmir Coelho

1 – Em 13 de dezembro de 2017 o site do Fórum Econômico Mundial publicava um artigo prevendo para 2027 a robotização total das escolas incluindo a categoria profissional dos professores no rol daquelas destinadas ao desaparecimento em função do avanço tecnológico somando esta aos médicos, jornalistas, advogados sem falar no operariado e até motoristas de UBER substituídos por veículos autônomos.

2 – Desta previsão do fim do trabalho físico faltou ao profeta, sir Anthony Seldon especialista em educação da Universidade de Buckingham, explicar qual seria o sistema econômico a surgir desta robotização total em substituição ao capitalismo amparado, como sabemos, na exploração do trabalho físico limitando-se, o Nostradamus do século 21, a simples repetição do mantra das vantagens de possuir a educação mundial robotizada um “professor” que não adoece, não tira licença, não precisa de férias e outros nãos e nãos desumanizados.

3 – O artigo apresentava, todavia, como impedimento imediato da realização da profecia do nobre inglês algumas dificuldades no campo das relações humanas insinuando a existência de pronto atendimento das exigências materiais e tecnológicas o mesmo discurso do caridoso casal Bill e Melinda Gates e sua fundação lobista dos interesses, inclusive, da educação à distância.

4 – A caridade de mr and mrs Bill Gates tem o tamanho e o alcance do poder econômico permitindo a presença  planetária dos interesses do pio casal – naturalmente associados aos bancos e fundos de investimentos -  em padronizar o processo ensino aprendizagem a partir dos interesses de sua Fundação envolvendo não somente o aspecto relativo ao controle das plataformas de ensino à distância, mas ao incentivo e patrocínio das avaliações externas e destas ao modelo de currículo escolar sempre associado ao dito projeto de vida disfarçado, de forma colorida, ao discurso meritocrático do cada um por si.

5 – Os Gates não ocupam sozinhos o posto de interessados – caridosamente – em aprofundar a presença da automação nas escolas apresentando o Google igual fúria na disputa pelo ensino online buscando o controle da principal mercadoria do momento; as informações pessoais dos estudantes e professores garantindo assim uma divisão do mercado controlando os Gates os softwares ficando o segundo com os anúncios.

6 – Este tipo de divisão de um segmento do mercado não constitui uma novidade no capitalismo e funciona a partir de um acordo entre os grandes grupos e podemos encontrar exemplos desde o setor financeiro – funcionando como espécie de liga da concentração de mercado -  até a indústria petrolífera assumindo estes oligopólios funções de controle nas respectivas políticas econômicas dos países notadamente aqueles mais atrasados impedindo o desenvolvimento de tecnologias nacionais adotando a prática de importação daqueles cientistas com maior potencialidade funcionando neste ponto o controle das atividades escolares como espécie de agência de seleção.  
  
7 – No Brasil a estrutura para adaptação da educação aos interesses do capital monopolista foi aprofundado a partir da Lei 13415/17 responsável pela reforma do ensino médio e toda legislação educacional posterior amparada no projeto de diminuição do tempo presencial do aluno na escola permitindo o total de até 20% do tempo do ensino médio diurno para o ensino à distância, 30% do ensino médio noturno e 80% na Educação de Jovens e Adultos (EJA) isso acrescido da redução da Base Nacional Comum Curricular para 1800 horas anuais criando ainda 1200 horas anuais para cumprimento, inclusive, fora das escolas.

8 – Coincidentemente, a partir do ano de 2017, registrou-se farta aquisição de editoras de livros didáticos e escolas, inclusive, de ensino médio através da antiga Kroton Educacional atual Cogna apresentada na revista Exame em 7 de abril último como beneficiária deste momento de fechamento das escolas – de ensino básico e superior – apesar do risco de inadimplência considerando sua experiência no ensino à distância: “com os alunos em casa, a empresa está abrindo essa opção para as escolas e depois poderá aproveitar esse canal para oferecer novos produtos e serviços.”

9 – Em termos práticos a reportagem em questão apenas esclarece a condição de bola da vez no mercado acionário das empresas de educação à distância direcionando para este setor o grande capital representado nos fundos de investimentos internacionais surgindo ao mesmo tempo – pura coincidência -  um discurso oficial pautado na “defesa da educação” dos pobres aspecto a ser abordado mais adiante no presente artigo.  

10 – A crise econômica detonada a partir da pandemia do COVID-19 contribuiu para a aceleração do processo de introdução do modelo de ensino a distância sempre conduzido pelo discurso caridoso pronunciado com voz macia, mas ocultando os reais interesses econômicos dos bancos e fundos de investimentos internacionais cuja voracidade faz incorporar em todo o planeta, aos respectivos patrimônios, trilhões de dólares incluindo no Brasil – através da emenda constitucional do Orçamento de Guerra – o poder de suspender o vinculo constitucional da educação ficando o Estado brasileiro proibido de retirar um centavo do montante destinado ao  pagamento dos juros da dívida pública.  

11 – Somado a propensão dos estados em doar os recursos dos trabalhadores aos grandes grupos financeiros temos ainda o discurso do direito à educação transformado em forma de aumento destas doações através de uma inesperada preocupação dos governos capitalistas em garantir o acesso das crianças e jovens ao conteúdo escolar durante o período de isolamento e deste o fechamento das escolas em todo o planeta criando, eis a resposta ao inesperado surto de defesa da educação dos governantes capitalistas, um mercado de pelo menos um bilhão de pessoas segundo levantamento da UNESCO.

12 – Aproveitando esta oportunidade de negócios o Goldman Sachs recomenda aos seus clientes milionários o investimento em empresas do setor de tecnologia em ensino à distância experimentando estas, aumentos consideráveis nos valores de suas ações algumas, segundo os avaliadores do Goldman, prometendo valorização de até 50% nos próximos 12 meses.

13 – Este otimismo do setor financeiro global, todavia, não está amparado na entrega efetiva de um produto – o ensino online – de forma ampla aos estudantes independente da localização geográfica, classe social, acesso à internet e equipamentos necessários a concretização do processo ensino aprendizado pago com recursos  estatais existindo de forma evidente uma farsa para possibilitar a transferência de recursos da educação pública aos tubarões do sistema financeiro internacional pagando, naturalmente, as comissões de costume aos intermediários.

14 – O Banco Mundial, em recente relatório, confirma esta situação ao informar que  “A transição para o aprendizado on-line em escala é uma tarefa muito difícil e altamente complexa para os sistemas educacionais e mesmo em condições não emergenciais poucos (se houver) sistemas de ensino, incluindo aqueles de melhor desempenho, estão bem equipados para oferecer o ensino on-line.”

15 – O relatório ainda aponta o elevado custo para a criação e manutenção da estrutura necessária ao funcionamento pleno do ensino online acrescido este do necessário preparo dos professores envolvidos no processo e mesmo existindo esta estrutura de transmissão ficam ainda questões relacionadas a equidade existindo o risco de beneficiarem-se somente aqueles estudantes pertencentes aos grupos sociais em condições de pagar o acesso à internet e compra do equipamento necessário ao aprendizado.

16 – A limitação do acesso á internet levou diferentes universidades públicas do Brasil a não adotar as chamadas aulas online para os estudantes da graduação e destas encontram-se incluída a Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG - entendendo os conselheiros da Câmara de Graduação as limitações quanto a equidade afirmando: “[a] heterogeneidade do corpo discente da UFMG não permite garantir que todos terão acesso frequente e estável aos recursos computacionais necessários para acompanhamento das atividades.”

17 – A dificuldade observada nas condições dos estudantes da UFMG não difere daquela apontada através dos estudos da Telecommunication Development Sector – ITU – revelando a existência de 41% da população mundial sem acesso à internet enquanto 51% não possui computadores dependendo estes de estabelecimentos como bibliotecas públicas para entrarem em suas contas aspecto agravado nas populações das periferias e rurais sem nenhuma possibilidade.

18 – Devemos ainda observar que o acesso à internet de banda larga – necessária para a melhor fluidez e desenvolvimento das propostas de ensino online – depende do poder aquisitivo do usuário restrito, no caso brasileiro segundo a Agência Nacional de Telecomunicações ANATEL em 2019, ao número de 31,69 milhões de residências, ou seja, menos da metade do total.

19 - A pressa dos governos em estabelecer, em função da pandemia do COVID-19, o ensino online longe de atender aos interesses educacionais dos trabalhadores revela o elevado grau de contaminação entre os interesses do capital privado e aqueles responsáveis pela administração pública ambos preocupados em encontrar os meios para a salvação de um modelo econômico comprovadamente injusto e doente.   

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