segunda-feira, 1 de julho de 2019

NÃO VIVEMOS EM UMA NOVELA Wladmir Coelho


NÃO VIVEMOS EM UMA NOVELA

Wladmir Coelho

Os atuais detentores do poder político brasileiro encontram-se legitimados a partir do discurso irracional da negação do processo de dependência econômica criando este um revisionismo de base mítica no qual um herói vai acabar com a corrupção aprisionando e silenciando exatamente aqueles que, em maior ou menor escala, defendem o rompimento com as causas históricas do atraso econômico nacional, ou seja, o modelo econômico de base colonial.

Este discurso mítico não nega o atraso econômico nacional e assume como missão a superação desta condição, contudo a sua base irracional possibilita uma narrativa fantástica na qual os detentores do poder econômico transformam-se em vítimas dos trabalhadores em função dos “privilégios” que estes possuem.

Retirar direitos trabalhistas como forma de superação de uma crise sem fim constituiu a base do discurso dos atuais governantes e esta fórmula serviu para a divisão de nosso povo acuado pelo crescente desemprego.

O capitalista, afirma a narrativa mítica, pretende investir, mas está sufocado em função dos direitos trabalhistas oferecidos aos privilegiados que ainda possuem emprego e acrescente ao sofrimento deste inocente empresário o fato propina que consome o restante de seu capital.

A narrativa mítica possibilitou, inclusive, a naturalização da utilização da força bruta e transformação dos setores políticos populares em inimigos do Estado legitimando os meios para a punição ideológica fantasiada de justiça.

Os atuais detentores do poder político no Brasil acreditam tomar parte de uma revolução e iniciaram uma narrativa histórica na qual todos os problemas do país ficam resumidos aos primeiros anos do século 21 ponto inicial da corrupção.

O chefe revisionista delirantemente, para apoiar a narrativa mítica, criou a crença em um passado glorioso para o período iniciado em 1964 conhecido e reconhecido como ditadura militar, contudo as contradições verificadas entre as políticas econômicas do período e seu entreguismo desvairado resumiu sua adoração aos aspectos sádicos dos torturadores.

O revisionismo mítico sustenta, desta forma, as bases para o uso da força como meio de legitimar a superação do atraso econômico ocultando a contradição, quanto ao papel do Estado, no processo de organização da economia.
Precisamos aqui recordar que a ditadura militar, em seu aspecto econômico, prosseguiu e ampliou a política de dependência adotada no governo de Juscelino Kubitscheck ponto de rompimento com o nacionalismo econômico varguista.

Recordo ainda que exatamente no período que antecede ao golpe militar de 1964 o governo trabalhista de João Goulart, através das chamadas reformas de base, associava ao modelo varguista os primeiros direitos sociais ou a garantia destes em nossa história tornando-se assim um inimigo declarado das forças imperialistas.

Vejamos: a ditadura militar desnacionalizou a economia brasileira apresentando um modelo de industrialização dependente apoiando esta fórmula no planejamento estatal garantindo este o controle da energia e matéria prima.

O fracasso deste modelo apresentou-se exatamente no fato dependência das multinacionais que optaram em distribuir suas instalações em diferentes países dividindo a produção e quando o Brasil percebeu possuía apenas nominalmente uma indústria sem controlar a tecnologia ou a elaboração desta.

Este fato não foi em essência diferente do verificado na China, contudo este país além de proteger-se através de diferentes planos para superar o atraso econômico permitiu a presença do capital externo a partir de rígido controle das áreas e limites de atuação das multinacionais revelando, inclusive, um plano para o desenvolvimento tecnológico constituindo esta, em nossos dias, a principal causa das disputas com os Estados Unidos.

Retomando o revisionismo mítico; a ditadura militar foi fantasiada e apresentada como um período de glórias, contudo esta narrativa limita-se a exaltação de uma ordem obtida através do uso da violência e do sadismo dos torturadores contra todos os inimigos de um Estado submetido ao imperialismo recebendo seus governantes, ironicamente, o título de patriotas.

Na realidade durante a ditadura militar os governos submeteram-se aos ditames das multinacionais, contudo a necessidade destas de abastecerem o mercado interno e ainda a exportação criaram os meios de perversão da política econômica nacionalista transformada, neste caso,  em meio para o  financiamento da matéria prima e combustíveis do capital estrangeiro aqui instalado e foi somente por este motivo que a Petrobras, a Vale do Rio Doce não foram extintas durante a ditadura.

Como é possível verificar o erro não encontrava-se no fato intervenção do Estado na economia e sim na política econômica dependente apresentando este fato a limitação revisionista e acrítica dos míticos (ou seriam místicos?) revelando o dito patriotismo dos generais da ditadura como uma espécie de tributo às multinacionais acrescido este de vantagens pessoais, inclusive, na forma de elevados cargos administrativos nestas empresas.

Contradição das contradições o Brasil, no período posterior a ditadura, ainda conseguiu herdar os elementos garantidores para intervenção no domínio econômico a ponto de incluir na Constituição de 1988 estas garantias agora em uma estrutura voltada a superação do modelo econômico de base colonial.

Não por coincidência o discurso revisionista mítico, como forma de impedir o rompimento com o modelo de exploração de base colonial, vai enterrando a Constituição de 1988 um processo iniciado com Fernando Collor e continuado por Fernando Henrique Cardoso.

Curiosamente muitos ainda espantam-se com uma declaração, em vídeo que circula na internet, do então deputado Jair Bolsonaro defendendo o fuzilamento de Fernando Henrique Cardoso quando este extinguiu o monopólio da Petrobras.

Bolsonaro, na realidade, continua com os mesmos propósitos; defender o predomínio do capital estadunidense e simplesmente naquele momento – em função de suas conhecidas limitações – ainda não havia percebido que a entrega da empresa nacional de petróleo era necessária aos interesses do imperialismo.

Os atuais governantes foram eleitos a partir de uma farsa e as provas, agora documentais, encontram-se estampadas nas redes sociais e grandes veículos de imprensa revelando uma trama envolvendo a justiça cujo resultado primeiro foi o comprometimento da lisura das eleições de 2018 seguida da perseguição aos trabalhadores e na cassação dos direitos sociais.

A tragédia revisionista irracionalista verifica-se ainda na destruição da pesquisa e consequente criação tecnológica reduzindo o Brasil a condição de vendedor de matéria prima e outros primarismos criando, via imprensa dita grande, a ilusão de tempos melhores.
Os resultados práticos da política econômica dos mistificadores apresentam suas primeiras consequências verificando-se o aumento da insatisfação popular diante do desemprego gigantesco de nossos dias, da destruição da educação e saúde pública.

Contudo ainda temos a falta de um projeto claro de superação de nosso atraso e rompimento com o modelo de submissão ao imperialismo e falando francamente estamos presos, em determinada medida, à crença de uma salvação inclusive resultante de “bombas” divulgadas através dos mesmos meios e pessoas responsáveis pela criação do revisionismo mítico base de todo este terrível processo de destruição do Brasil.

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